Andavam pela casa amando-se no chão e contra as paredes. Respiravam exaustos como se tivessem nascido da terra, de dentro das sementeiras. Beijavam-se magoados, até se magoarem mais. Um no outro eram prisioneiros um do outro, e livres libertavam-se para a vida e para o amor. Vivendo a própria morte voltavam a andar pela casa amando-se no chão e contra as paredes. Então era a música, como se cada corpo atravessasse o outro corpo e recebesse dele nova presença, agora serena e mais pobre mas avidamente rica nessa pobreza. A nudez corria-lhes pelas mãos, onde tudo é branco e firme. Aquele fogo de carne era a carne do amor, era o fogo do amor, o fogo de arder amando-se por toda a casa, contra as paredes, no chão. Se mais não pressentissem bastaria aquela linguagem de falar tocando-se, como dormem as aves. E os olhos gastos por amor de olhar, por olhar o amor. E no chão contras as paredes se amaram e pela casa andavam como se dentro das sementeiras respirassem. Prisioneiros libertados, um no outro eram livres e para a vida e para o amor se beijaram magoando-se mais, até ficarem magoados. E uma presença rica, agora nova e mais serena, avidamente recebeu a música que atravessou de um corpo a outro corpo chegando às mãos onde toda a nudez é branca e firme. Como uma carne de fogo, incarnando o amor, incarnando o fogo, contra o chão das paredes se amaram, pressentindo que andando pela casa, bastaria tocarem-se para ficarem a dormir, como acordam as aves.
quinta-feira, 10 de março de 2011
sábado, 5 de março de 2011
ponto #1: como reduzir o existencialismo a conversa de café
explica-me o para sempre, que para sempre, o para sempre.
eu só posso dizer que sonhei com um amor que nunca ia acabar, e que deus me iria perdoar.
mas o tempo chegou por fim, com as vozes fortes como trovões, que destruíram os meus sonhos - partiram-nos em pedaços.
Ele chegou e encheu os meus dias com verão e esperança, ele levou a minha infância na sua garganta. O para sempre é o verão, e a esperança. E eu espero que ele volte para mim, e viveremos os anos que passaram - mas há sonhos que não podem assim ser. Esperei que o para sempre fosse o que devia ser. A vida acordou-me.
Ele chegou e encheu os meus dias com verão e esperança, ele levou a minha infância na sua garganta. O para sempre é o verão, e a esperança. E eu espero que ele volte para mim, e viveremos os anos que passaram - mas há sonhos que não podem assim ser. Esperei que o para sempre fosse o que devia ser. A vida acordou-me.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
bençãos.
Bem hajas oh luz do sol, dos órfãos agasalho e manto.
Imenso e eterno farol, neste mar largo de pranto.
Bem hajas água da fonte, que não desprezas ninguém.
Bem haja a urze do monte, que é lenha de quem não tem.
Bem hajam rios e relvas, paraíso dos pastores.
Bem hajam as aves das selvas, música dos lavradores.
Bem haja o cheiro da flor que alegra o lidar campestre.
E o regalo do pastor, a negra amora silvestre.
Bem haja o repoiso e a sesta, do lavrador e da enxada.
E a madressilva modesta, que espreita à beira da estrada.
Triste de quem der um ai, sem achar eco em ninguém.
Felizes os que têm pai, mimosos os que têm mãe.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
amores de areia e vidros
Que fazes tu louco homem? Pensas que é tudo assim tão simples, que podes escolher amantes como quem colhe rosas dum quintal? Para beijos e abraços, braços e pernas, não faltam pretendentes, mas não queres ser senhor de alguém? Deixa de ser a mão que és e passa a ser um braço, um ombro, um peito, um coração. Perdes-te por dor e pecado, lume e ciume e tudo o que mais existe por nada, por uma noite numa praia deserta, com alguém cujo nome passará a ser apenas um número para ti. Queres ser como ela? Como aquela meretriz que agora tanto desprezas? Deixa a soberba e vaidade que trazes nos teus brilhantes e entrega-te de vez a quem te ama de verdade. Deixa a paixões de cavaquinho e copo do vinho e aceita o amor do tempo e o tempo que esse amor traz. Não queiras ser como ela que acordou tremendo, de manhã, na areia, sem olhos para lhe penetrarem o coração.
Sai desse barco negro e aceita a estrela que te queiram dar. Eu por ti rezo, para que ainda tenhas alguém à tua espera.
Sai desse barco negro e aceita a estrela que te queiram dar. Eu por ti rezo, para que ainda tenhas alguém à tua espera.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
a felicidade
Desci a montanha que levava ao vale, e a paisagem desaguou no mar. As gotas de orvalho eram tantas e tão cristalinas, que pareciam cristais que se evaporavam com o beijo da luz. A luz espantava-se com a sua própria grandeza, tocando nas mais pequenas coisas. As cores, vivas de serem novas, trocavam de cor entre si.
Parecia a primeira alvorada do mundo.
sábado, 29 de janeiro de 2011
cartas perdidas: o adeus de almada
Numa quarta feira, como tantas outras, cheguei a casa e tinha à minha espera um elefante e um isqueiro. Dentro desse elefante havia uma carta.
Vou partir mais uma vez. Mas antes disso, quero devolver-te o teu isqueiro. Junto com ele, envio outras coisas, como a conta do café. Acho que por esta altura já me deves o suficiente para comprar um carro. Mas agora num tom mais sério, tenho imensa pena de não te ter encontrado. Mais uma vez, fui à tua procura e não te encontrei. Podias me ter fotografado pela última vez naquela casa, mas pensando bem, já me fotografaste tantas vezes que já me perpetuaste lá.
Deixei tudo com a tua mãe. A tua mãe. E o cheiro da tua casa. Minha mãe e minha casa.
Obrigado. Também vou sentir a tua falta.
"Totally", A.
Vou partir mais uma vez. Mas antes disso, quero devolver-te o teu isqueiro. Junto com ele, envio outras coisas, como a conta do café. Acho que por esta altura já me deves o suficiente para comprar um carro. Mas agora num tom mais sério, tenho imensa pena de não te ter encontrado. Mais uma vez, fui à tua procura e não te encontrei. Podias me ter fotografado pela última vez naquela casa, mas pensando bem, já me fotografaste tantas vezes que já me perpetuaste lá.
Deixei tudo com a tua mãe. A tua mãe. E o cheiro da tua casa. Minha mãe e minha casa.
Obrigado. Também vou sentir a tua falta.
"Totally", A.
a impotência literária
Levantaram-se as almas do chão, e dançaram em meu redor. Banquetearam-se com o meu estado. Meu deus, meu amo, e meu senhor; quebrastes as minhas cadeias. Sou a sombra. Apenas a sombra. Alma penada desnorteada. Não abandones a minha alma na mansão dos mortos. Defendei-me, oh vós que sois o meu refúgio. Tu que és porção da minha herança e do meu cálice. Está nas vossas mãos o meu destino. Convosco a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegrava e a minha alma exultava. Por isso todo o meu corpo descansava tranquilo.
Vieram os corvos limpar a carcaça.
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