Mostrar mensagens com a etiqueta depois do azul. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta depois do azul. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de setembro de 2011

mar de cinzas e cimento

É como se me matasses e eu morresse de novo.
Mas a maquina é suave.

Sê esmagado por elefantes de metal que fogem do meu mar salgado,
Vais ser sangue, suor e lágrimas uma vez só.

Vais voltar à terra de onde vieste com o rabo entre as pernas,
que nem cão vadio que és.

Vou ser sangue, lágrimas e sal.
Vou ser eu mais um morto.

Sê a dor e a droga que não devolves.
Vais querer o amor que não me querias dar.

Vai ser como se morresses de novo, só mais uma vez, bem devagar,
no meu mar salgado.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

No silêncio dos pecados habitava a felicidade

No silêncio dos pecados habitava a felicidade deles. Disseste-lhe “A inocência com que brincas no parque, arde-me em todos os pontos da alma”. Ele, que o viste chegar num dia de sol fraco, partiu numa noite sem lua. O caminho tornou-se longo e a estrada larga. O céu fantasiou-se de roxos violentos, e violetas modestos. Doravante comeriam ambos da dor que em si pariram. Despojado de matéria, entregaste-te ao azul que entrou no quarto, que te entrou na alma. Inebriado pelo caudal de sensações que te percorriam as veias, deixaste-te apodrecer. Os teus cavalos caíram no abismo. Doce linho que te envolveu no silêncio. Doces cravos que te pregaram ao chão da inexistência. Selaste o moimento.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

amores de areia e vidros

Que fazes tu louco homem? Pensas que é tudo assim tão simples, que podes escolher amantes como quem colhe rosas dum quintal? Para beijos e abraços, braços e pernas, não faltam pretendentes, mas não queres ser senhor de alguém? Deixa de ser a mão que és e passa a ser um braço, um ombro, um peito, um coração. Perdes-te por dor e pecado, lume e ciume e tudo o que mais existe por nada, por uma noite numa praia deserta, com alguém cujo nome passará a ser apenas um número para ti. Queres ser como ela? Como aquela meretriz que agora tanto desprezas? Deixa a soberba e vaidade que trazes nos teus brilhantes e entrega-te de vez a quem te ama de verdade. Deixa a paixões de cavaquinho e copo do vinho e aceita o amor do tempo e o tempo que esse amor traz. Não queiras ser como ela que acordou tremendo, de manhã, na areia, sem olhos para lhe penetrarem o coração.

Sai desse barco negro e aceita a estrela que te queiram dar. Eu por ti rezo, para que ainda tenhas alguém à tua espera.

domingo, 16 de janeiro de 2011

os canais da nossa rua

Da televisão ouvem-se sons de interferência, como um zumbido azul das formigas que comem o ecrã. É estranho ter saudades de algo que não existe?

Este é um dia mau. Nada faz sentido. E não sei porquê tenho saudades de chorar no teu regaço enquanto me dizes que tudo vai correr bem. Sinto falta das memórias que nunca tive. Da minha versão das coisas. Dos dias solarengos de Inverno.

Era por tua causa que eu dizia coisas sem sentido. Nós éramos os amantes perfeitos, com um casamento na igreja de deserto, num domingo branco em Agosto. O meu sorriso de Agosto, o meu sorriso de domingo. Como tenho andado perdido sem ti. Lembro-me das nossas tardes de Fevereiro passadas nas ruas molhadas e a correr para comboios. Das nossas noites de Janeiro à espera do outro, ou em Março, a sonhar ao sol no teu quintal. Mas perfeitas eram as manhãs de Dezembro com os cigarros na cama e o teu café envenenado. Em Abril, partiste com as águas. Partiste em mil pedaços de água.

Tenho saudades do teu abraço, mas não me lembro dele. Não podemos ter falta daquilo onde nunca estivemos. Eu sempre disse que para mim eras um lugar, não uma pessoa. Casa é onde estou contigo. (e isto tudo fazia mais sentido se estivesses aqui)

Tenho saudades tuas. Mas a televisão diz que não devo. Tu pertences àqueles que estão sozinhos, partidos e magoados, pisaduras e cicatrizes que te vão mostrar quem és.


Da televisão ainda se ouvem os sons de interferência, como um zumbido negro das formigas que dançam no ecrã. É estranho ter saudades de algo que nunca existiu?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

temo pela vida do meu semelhante

Eu não me importo se as tuas mãos estiverem frias, pelo menos ainda estou vivo, mesmo não tendo para onde ir. Mas por favor, não me deixes. Não me deixes aqui com este remédio. Mesmo à noite, não me deixes dormir sozinho, pois quando durmo é quando estou ainda mais só. E é ai que preciso que tomes conta de mim. Eu sei que também choras quando eu vou embora, mas peço-te que nunca mo digas, não conseguiria aguentá-lo sozinho. Tu és o único pilar que aguenta esta casa de lunáticos.
Vejo as luzes através do ecrã a criarem sombras, onde sinto os estofos a roubarem-me o corpo, todo o meu ser foge por um buraco no chão, feito pelo teu anel. Ouço as canções de embalar vindas das máquinas de escrever, que contam verdades que ninguém quer ouvir. Dizem que vais partir. Não me deixes sozinho com o meu irmão que tenho medo de o matar. Os ciúmes podem apoderar-se de mim e eu não quero mais sangue nas minhas mãos.
Estou com mais medo do que nunca.

Não me deixes. Não me deixes aqui com este remédio.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

preludio ou sonho número quatro: a cabana de baba yaga

enquanto matava um galinha para beber o seu sangue, a velha anciã mostrou-me o mapa, encriptado em enigmas.

após a Jovem e a Mãe,
sou a Grande Sábia, a Velha Anciã
,
e digo-te a verdade que é uma só.
a césar o que é de césar
a deus o que lhe pertencera.

domingo, 31 de outubro de 2010

sonho número três: encontro na montanha do fogo

Após três dias perdido num floresta, segui um gato tão negro como a noite. Ele levou num à procura de uma estrada. (que comece então uma nova demanda).
Levou-me até uma estrada de terra batida. Ali, os dias não acabavam. Vi no céu uma chama com duas mulheres, uma com um manto vermelho, e uma menina com um coração em chamas na mão direita. A mulher mais velha e mais sábia disse-me para não fazer mais perguntas e apenas seguir a estrada, mesmo assim, descalço.

Até amanhã, disse-me.
Até amanhã se Deus quiser.
Hei-de querer, o meu coração está entre vós.

Eu sou a verdade
Eu sou o caminho.
Ninguém chegará ao azul sem mim.

Havia um homem enterrado, coberto de dúvidas dos seus crentes. Fora a sua mulher quem o matou - ou a sua filha -, com balas prateadas, como se mata outro qualquer. Dizem por aí que Ela gosta de destruir as vidas alheias, de homens perdidos que não sabem governar, mas quando já nada resta, tira a alma a esses pobres coitados.

Eu sou a verdade
Eu sou a escritura sagrada.
Sem mim não há azul, nem outro caminho.

Até amanhã se tu também o quiseres.
Acredito num só deus todo e poderoso.
Acreditas em mim, disse-me, e meu agora é o teu corpo e o teu peito.

domingo, 19 de setembro de 2010

o meu gato tem insónias III

Abre meus olhos, meu amor
E verei o dia!
Visitação do sol, oh luz.
Ilumina a vida.
Guia-me pela mão, sê a lâmpada dos meus pés
Que em tudo vacilam.

À fonte vou que é minha cruz,
Vou levar meus olhos.
De lá caminha o meu amor,
De lá vem o troar da trompa.
Venha o Sol! Venha o Azul!
E comece o Mundo!

sábado, 18 de setembro de 2010

sonho número dois: alice

Esta distância cada vez mais me perturba. Custa-me que ainda ninguém perceba que tu está bem, assim como eu estou bem. Mas se ousar dizer que sei que tudo que eles dizem sobre ti é mentira, mandam-me para junto de ti. Como as paredes devem ser mais altas e mais apertadas. Sempre me imaginei como tu, presa, num tubinho de papel, sendo uma moeda a subir pelas paredes. Os casacos brancos com os quais eles te prendem, não servem mais que para te prender das mãos, para te impedirem de ver que ainda consegues controlar os teus sonhos. É isso que eles nos querem fazer, querem nos impedir de sonhar, de poder sonhar. Como eu sinto a tua falta.

Sempre que não atendes as chamadas, penso que encontraram os corpos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

the wolves at my door

you're the wolves at my door.

How can I love someone like her? (someone that loves me back)

all my life I've tried to find someone that would laught at my jokes. when I think about it, I'd rather have someone that cries with the same songs. how can I know if things are worth it if I can't let you smile? these dreams, I can't make sense of. I need you to tell me it's ok. can I love somebody else? can you cry with another man? can she betray me like you did?

today I found a new door. you would love that. I'll never find another woman that likes to gaze at the stars like you do.

you're still at my door.
(and these dreams don't make sense either)

terça-feira, 13 de julho de 2010

sonho número um: as (des)aventuras da minha alma

Perdi a minha alma, pois também perdi a minha Inês.

Acabei de sair do barco, procuro rumo, um oriente que me oriente, quero pôr os pés na terra e encontrar o teu abraço. Só me recordo dos recortes do teu rosto, de como o teu sorriso brilhava mais que todas as luzes, tornando a tua face a mais bela das minhas pinturas. Vejo o barco da morte à minha frente, envergada por almas perdidas fazendo um mar. A morte, esta da letra pequena, carrega a sua companheira que nunca esqueceu e sente o peso de tudo que tem que encontrar. Esta cruz pesa mais que uma outra que diz carregar a paz do mundo. Esta carrega os horrores de todos os homens, leva os sonhos a pesadelos e faz adultos das crianças. Perante esta cruz todos isão guais, não são mais que os próximos a levar esta barcaça. Mas ainda não é a minha vez, tenho que seguir e encontrar-te. Desvio-me e ouço cães uivar. Sentem o meu cheiro. Estão cada vez mais próximos e querem levar-me com eles. Do meu estômago sem fios de luz que escorregam como serpentes. A minha alma escapa-me à medida que vou andar. O cães estão cada vez mais próximos, são como fumo, negro e de olhos com safiras. Tentam agarrar-me mas já estou próximo de tua casa. Vou esperar aqui, debaixo deste candeeiro que não me responde. Levanto as mãos e acendo-o. A sua luz azul aquece-me.
Vejo-te a sair do prédio. Pedes que te siga. Sigo.

Vejo safiras ao longe, por entre o nevoeiro, e o rio que sangrei.