sábado, 15 de maio de 2010

cartas perdidas: o bucólico

Roubaste-me a idade, e fizeste-me só teu. Agora deixaste-me sair da tua penumbra. Eis-me aqui.


A rapariga tem os cabelos loiros, dourados pelo sol, quais campos de trigo ululando ao vento. Ele é mais novo e de aspecto franzino. Vieram a correr do lado do regato, e em frente ao meu alpendre se deixaram ficar. No desenrolar da conversa ela levanta-se e estende-lhe a mão, convidando-o a dançar. Os corpos deles juntam-se, e o rapaz ruboresce. Embalam numa dança trôpega, mas graciosa. Ela faz os possíveis para o ensinar, mas ele está mais preocupado em não parecer nervoso.

Depois deste quadro, meu caro César, a saudade de ti aumentou. Quantas vezes não acertamos o nosso ritmo, e por isso nos pisamos. Se nos fosse permitido ser criança novamente…

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Junkies



Por entre reflexos e sorrisos, olha para nós, como se fosses um de nós.
Senta-te à mesa connosco, fuma um dos nossos cigarros, tenta perceber os nossos vícios e manias.






Esta noite serviu? Já sabes porque sorrimos?
Sente o sol da manhã na nossa cama, vê como te ardem os olhos e saboreia o cheiro do café.







Vive na nossa escuridão, vive na nossa luz.
Não te esqueças das sombras, das mentiras do cinema, nem das verdades da poesia.
Lembra-te do beijo quente de uma mulher e do abraço forte de um homem, como todos nós o fazemos.


fotografias de João Cruz

quarta-feira, 5 de maio de 2010

cartas perdidas: a despedida

Desta vez falaste-me da forma que eu menos esperava até então. Tão longe de mim enviaste-me uma carta. Nela, Almada, dizias

Vivi num estado onde nem ousam entrar. Flutuei. Planei acima, intocável. Vivi a vida de um outro eu. Mudei assim, segundo as tuas teorias malucas do universo. Com a pequena diferença de que me apercebi.
Agora dói.

Novamente, como em muitas dolentes noites em que a chuva bate, solitário, invoco Garcia Lorca, que tanto amavas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!

Eu pronuncio o teu nome na noite e isso dói mais que nunca.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

sem título #3

Eu não sei da beleza nem da arte
Não sei de homero nem das pessoas
Não vi a lua, nem sonho com marte
Ainda temo os pássaros e as lagoas
Mas, se soubesse dos cantos, faria das palavras a mais bela canção de amor.

Eu já não conheço a alegria nem a dor
Nos pés tenho as marcas do sol
Nas mãos tenho romances por contar
Nos olhos, números por saber
E na mente, dias por lembrar
Mas, se soubesse escrever, cantava-te uma canção de amor.

sábado, 17 de abril de 2010

cartas perdidas: o cativo

O meu querido amigo Almada - por quem guardo os mais simpáticos e respeitosos sentimentos e dirigo muitos dos meus escritos - tinha, e ainda tem, por hábito enviar-me algumas cartas com palavras que provavelmente nem ele entende. Obviamente, quando se fala de amor, poucos são os que conseguem.

Ele não se rege pelas nossas regras.
Nada sabe do sentimento alheio.
O teu amor perturba-o.
Odeia ver-te escravo dele.
Ele vive numa busca desesperada de vale em vale,
à procura de amar quem não o ama.
E sofre com isso.
E vive nisso.
E odeia-se por isso.
Ele não se rege pelas nossas regras.


Hoje sou eu quem diz com toda a certeza, O amor é um jogo, do qual as regras ninguém nos ensinou.



Continuamos a perder

sexta-feira, 9 de abril de 2010

cartas perdidas: o meu livro amigo

Na minha estante tinha uma edição antiga de "O Amor nos Tempos de Cólera". Na ultima pagina tinha escrito:

Quando se acaba de ler um livro, fica-se-nos um vazio. Como se um amigo com quem por longos periodos partilhamos segredos, vivencias e ensinamentos tivesse partido para parte incerta.

A., totally

Sim, tinhas razão. A minha estante está cheia de amigos que já partiram.

cartas perdidas

Hoje encontrei algumas cartas antigas, minhas e tuas, que te roubei, que me devolveste, que nunca te enviei, onde te menti e disse verdades a mais.
Ainda não sei por onde começar.