Após três dias perdido num floresta, segui um gato tão negro como a noite. Ele levou num à procura de uma estrada. (que comece então uma nova demanda).
Levou-me até uma estrada de terra batida. Ali, os dias não acabavam. Vi no céu uma chama com duas mulheres, uma com um manto vermelho, e uma menina com um coração em chamas na mão direita. A mulher mais velha e mais sábia disse-me para não fazer mais perguntas e apenas seguir a estrada, mesmo assim, descalço.
Até amanhã, disse-me.
Até amanhã se Deus quiser.
Hei-de querer, o meu coração está entre vós.
Eu sou a verdade
Eu sou o caminho.
Ninguém chegará ao azul sem mim.
Havia um homem enterrado, coberto de dúvidas dos seus crentes. Fora a sua mulher quem o matou - ou a sua filha -, com balas prateadas, como se mata outro qualquer. Dizem por aí que Ela gosta de destruir as vidas alheias, de homens perdidos que não sabem governar, mas quando já nada resta, tira a alma a esses pobres coitados.
Eu sou a verdade
Eu sou a escritura sagrada.
Sem mim não há azul, nem outro caminho.
Até amanhã se tu também o quiseres.
Acredito num só deus todo e poderoso.
Acreditas em mim, disse-me, e meu agora é o teu corpo e o teu peito.
domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
cartas perdidas: a perfeição ilusória inacabada
Teremos que nos transfigurar para nos podermos amar. Teremos que nos aparecer a nós próprios enquanto outros seres, para que possamos construir nova história. Deitar fora todos os pergaminhos, e escrever tudo de novo.
Desta vez, viveremos como deuses, afastados da mesquinhez do pensamento e do trato humano. Seremos harmonia com as flores, com o canto das aves e com o crepitar da fonte. Seremos a água que dela jorra, e onde o soldado se vai refrescar. Não seremos nem mais, nem menos, daquilo que devemos ser. Existiremos como uma unidade cósmica, que deambula pela natureza, e que se renova sem cessar.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
poemas nocturnos #1: hoje.
hoje.
sou apenas o retrato de um homem.
sou apenas uma mala de senhora.
sou a tua colagem do sétimo ano.
sou o teu espelho no outono.
sou um homem sozinho na rua.
e com dois cigarros no bolso
procuro a sobriedade.
não quero negligenciar o nosso amor.
quero que os teus gatos gostem de mim.
nunca escolho os lados, nunca escolho entre os dois,
pois só te quero, só quero a ti.
sou apenas o retrato de um homem.
sou apenas uma mala de senhora.
sou a tua colagem do sétimo ano.
sou o teu espelho no outono.
sou um homem sozinho na rua.
e com dois cigarros no bolso
procuro a sobriedade.
não quero negligenciar o nosso amor.
quero que os teus gatos gostem de mim.
nunca escolho os lados, nunca escolho entre os dois,
pois só te quero, só quero a ti.
domingo, 19 de setembro de 2010
o meu gato tem insónias III
Abre meus olhos, meu amor
E verei o dia!
Visitação do sol, oh luz.
Ilumina a vida.
Guia-me pela mão, sê a lâmpada dos meus pés
Que em tudo vacilam.
À fonte vou que é minha cruz,
Vou levar meus olhos.
De lá caminha o meu amor,
De lá vem o troar da trompa.
Venha o Sol! Venha o Azul!
E comece o Mundo!
sábado, 18 de setembro de 2010
sonho número dois: alice
Esta distância cada vez mais me perturba. Custa-me que ainda ninguém perceba que tu está bem, assim como eu estou bem. Mas se ousar dizer que sei que tudo que eles dizem sobre ti é mentira, mandam-me para junto de ti. Como as paredes devem ser mais altas e mais apertadas. Sempre me imaginei como tu, presa, num tubinho de papel, sendo uma moeda a subir pelas paredes. Os casacos brancos com os quais eles te prendem, não servem mais que para te prender das mãos, para te impedirem de ver que ainda consegues controlar os teus sonhos. É isso que eles nos querem fazer, querem nos impedir de sonhar, de poder sonhar. Como eu sinto a tua falta.
Sempre que não atendes as chamadas, penso que encontraram os corpos.
domingo, 12 de setembro de 2010
o meu gato tem insónias II
Tenho medo. As paredes tornaram-se negras e espessas. As divisões comprimem-se, apertando o ar, e eu asfixio. Estou tonto. Dentro delas aparecem cadáveres; crânios que gritam. Som estridente, suspenso e ensurdecedor. Relembram os erros do ser, que de humano tem pouco. Estou enjoado. Há um palhaço triste dentro de casa.
Sei que pela hora em que o portão chiou, foi a última vez que me amaste com o teu olhar. Era madrugada, e já um de nós havia morrido. Toda a música era o canto do corvo.
Socorri-me do branco pó que um dia me ofereceste. O que existirá depois do azul?
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
o meu gato tem insónias
Porque choras em silêncio, pobre mulher?
Porque fazes da tua vida o trabalhar incessante nesse tear?
Quem te sujeitou a tal sorte?
Por que linhas te coses?
Qual o fio da tua vida?
Se o amarrares, reconhecê-lo-ás?
De onde vem ele, e para onde vai?
Com quem se entrelaça?
Julgas, assim, tecer o teu próprio destino?
Pobre mulher, porque choras em silêncio?
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